Grandes empresários discutem os desafios e as vantagens do Brasil na construção de um futuro mais tecnológico e inclusivo

Um sistema educacional de mais qualidade e atento às necessidades do mercado de trabalho (inclusive o de tecnologia); um ambiente empreendedor e de inovação forte; um mercado consumidor fortalecido; e lideranças políticas renovadas com um projeto nacional e unificado de desenvolvimento. Isso tudo sem deixar de lado o que o povo brasileiro tem de melhor, principalmente a criatividade, a esperança e a solidariedade.

Esse é o caminho para o futuro apontado pelas lideranças empresariais que participaram da terceira plenária do IT Forum Trancoso 2021 nessa quinta-feira (19). Sob o tema Brasil: uma odisseia, onde estamos? para onde vamos?, o objetivo do debate foi discutir os caminhos para que o Brasil se torne mais inclusivo e competitivo digitalmente, considerando principalmente as contribuição que grandes organizações de diferentes setores podem dar.

O debate deu sequência às discussões do IT Forum > Anywhere, realizado em junho, e apontou caminhos para uma nação prestes a comemorar os 200 anos da Independência e os 100 anos da Semana de Arte Moderna.

Além de Cesar Gon, fundador e CEO da integradora multinacional CI&T, e de Laercio Cosentino, fundador e presidente do conselho de administração da Totvs, ambos do setor de tecnologia, participou do painel Janete Vaz, cofundadora e presidente do conselho do grupo de medicina diagnóstica Sabin. Adelson de Sousa, presidente executivo da IT Midia, foi o mediador.

“Minha visão é que a única saída para o Brasil se tornar uma nação desenvolvida é a inovação de alto impacto”, disse Gon. “Esses empreendimentos, para acontecerem em escala e em qualquer setor, dependem da existência dos tais ecossistemas de inovação.”

A própria CI&T é um exemplo de empresa de tecnologia nascida em um desses ecossistemas – no caso, o que cerca a Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. Para o executivo, a chave para que outros ambientes dessa natureza surjam no Brasil são três: educação, estímulo ao empreendedorismo e a formação de um mercado consumidor maior.

“O primeiro fator, o mais fundamental da equação, é a presença de estruturas de formação de capital humano de ponta em qualidade e quantidade”, ressaltou o fundador da CI&T. “O maior desafio é a educação. O sistema é muito deficiente.”

executivo acredita que há duas grandes dores: falta qualidade para que os alunos estejam preparados “em um mundo cada vez mais complexo e dinâmico” e, também, há uma desconexão com as demandas do mercado. “[As universidades formam] muita gente em carreiras com baixa oferta de emprego, e depois somos estrangulados pela falta de formação em exatas, em que a demanda é imensa e crescente”.

Para o fundador da Totvs, Laércio Cosentino, superar todas essas deficiências passa por estabelecer um projeto nacional de desenvolvimento. “Infelizmente sempre digo que o que falta é um plano de país que queremos ser”, disse. E se por um lado iniciativa privada e sociedade brasileira demonstraram, durante a pandemia, que estão preparados para mudanças, falta uma contrapartida governamental, acredita o executivo.

“E não estou falando só do último presidente. Há 20 anos eu imaginava que em 2020 estaríamos muito melhores. E hoje vivemos uma polarização, uma divisão. Não vemos o setor público realmente querendo resolver o problema do Brasil.”

A resolução de um desses problemas, o déficit de profissionais qualificados para o mercado de tecnologia, traria uma reação em cadeia, defende Cosentino. Pelo alto valor agregado gerado pelo setor, mais empregos seriam gerados, aumentando a renda geral e aumentando o consumo, gerando um ciclo econômico virtuoso.

“Esse déficit de mão de obra. Por que não avançamos mais? Porque os talentos estão indo para Portugal, EUA, Austrália… E ficamos reféns de um sistema que não quer mudar”, analisou. “Se pararmos para fazer reformas de cinco ou 10 anos [de horizonte], sabemos que em 2030 vamos sair do atoleiro.”

Outro problema elencado pelo fundador da Totvs: a falta de competitividade do Brasil em um mercado cada vez mais globalizado – graças à tecnologia, aliás.

Transformação e liderança
Para Janete Vaz, que como empresária do setor da saúde enfrentou a pandemia de COVID-19 na linha de frente, o momento “intenso e crítico” vivido pelo país demonstra a necessidade de inovar e transformar. Vale não só para o setor de saúde, mas para todos as verticais de negócio do setor privado e para o setor público, já que “o mundo todo mudou”.

“Não foi só mudança de tecnologia. Nós trouxemos o futuro para o presente”, o que exige, segundo a fundadora do Sabin, “uma liderança com capacidade de buscar o que precisamos”. No caso da rede de medicina diagnóstica, houve investimento em uma cultura da inovação, o que ajudou na adoção de tecnologias e na adaptação para o momento difícil.

Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Adelson de Sousa, Janete Vaz, Cesar Gon e Laércio Cosentino

“Na saúde tínhamos muitas barreiras. Usávamos muito pouco o digital”, lembrou Vaz. “Tivemos que ensinar médicos a fazer telemedicina. Eram raros [os que sabiam usar o sistema]. Colocamos um batalhão de profissionais para ir aos consultórios orientarem os médicos.”

Para a executiva do Sabin – que é reconhecido pelas iniciativas de gestão e capacitação de profissionais de seus profissionais de saúde –, o país como um todo não está preparado para essa transformação, embora a iniciativa esteja adiantada. E que parte de seu papel enquanto líder, inclusive como membro de conselhos de instituições como a Universidade de Brasília (UnB) e da Fundação Dom Cabral (FDC), é “reestudar o Brasil”.

“Por mais tecnologia que tenhamos, não tenho dúvida que o ‘olhos nos olhos’ e o tratamento e o atendimento humanizado, nesse momento em que tantos problemas mentais aconteceram nas organizações, é nosso principal papel”, ressaltou.

Ativos nacionais
Para Cesar Gon, embora os desafios sejam grandes, a velocidade com que a sociedade se redesenha e os comportamentos mudam dá ao Brasil uma janela de oportunidade, já que a inovação está sendo mais distribuída no mundo. E o País tem o que é necessário para ocupar um desses espaços.

“Quem não foi protagonista até agora, como o Brasil, pode desenhar o que é inovação no século XXI”, ponderou. “Somos um país neutro [em termos de conflitos geopolíticos], com potencial enorme de ocupar espaço no cenário de tecnologia e inovação. O que precisamos fazer é ajustar as engrenagens da sociedade e do mundo corporativo.”

Parte desse caminho, aliás, está sendo percorrido, diz o executivo. Muitas empresas estão se transformando e se tornando ambientes mais colaborativos e inovadores, disse o executivo. Agora falta o governo “que precisa ser virado do avesso”.

Para Janete Vaz, há ainda características do povo e da cultura brasileira que podem ser um diferencial competitivo. Para ela, a economia brasileira é “diferente”, e a diversidade e a solidariedade do nosso povo trazem oportunidades de fazer as coisas de forma nova.

“Sabemos dessa diversidade toda que o Brasil tem. Nós conhecemos o Brasil. Sabemos o quanto temos para ganhar”, reiterou. “Nós somos um povo muito entusiasmado. Falando de saúde, é a oportunidade de gerar saúde em todos os espaços. Eu admiro isso. Esse é o Brasil.”

A criatividade do nosso povo foi destacada por Cesar Gon. Para ele, a “a criatividade, associada à disciplina, muda a capacidade de resolver problemas”. E também nossa diversidade.

“Existe essa visão hoje de que a consciência coletiva é mais poderosa do que a inteligência individual. A sala é mais inteligente que qualquer indivíduo dentro da sala, e quanto mais diversa essa sala for, mas exponencial a capacidade de resolver grandes problemas”, ressaltou. “Isso abre espaço para nós como país sermos um grande resolvedor de problemas sociais.”

Mas, é claro, essas vantagens não resolverão sozinhas os nossos problemas, com frisou Laércio Cosentino. “Temos que ter orgulho de ser brasileiro, com certeza. Mas também acho que temos que investir em três coisas: investir no ambiente de negócios, na capacitação de pessoas e em uma renovação política”, disse. “Somando tudo que a Janete falou que nós somos, a gente vai longe.”

Fonte: IT Fórum

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