A cidade colombiana ensina o valor da cooperação, da inovação social e da criatividade para a resolução de problemas reais

Por Clayton Melo

Tráfico de drogas, crimes bárbaros e terra de Pablo Escolar. Ainda hoje é assim que Medellín povoa o imaginário de muitas pessoas. Essa imagem pode ter sido reavivada de alguma forma por Narcos, a série da Netflix que traz Wagner Moura no papel de Escobar. A obra conta a história do pior momento da guerra ao narcotráfico, na década de 1990, quando a cidade era a mais violenta do mundo, com a terrível marca de 380 homicídios por cem mil habitantes, número próprio de lugares em guerra.

“AS CONQUISTAS NAS ÁREAS SOCIAL E URBANÍSTICA COLOCARAM MEDELLÍN NA VITRINE GLOBAL, RECEBENDO VÁRIOS PRÊMIOS DE URBANISMO”

Muita coisa mudou de lá para cá. Hoje, Medellín, a segunda cidade mais populosa da Colômbia, com cerca de 2,5 milhões de habitantes e uma importante cena empreendedora, se mostra internacionalmente de outra forma. O tráfico e a criminalidade ainda existem, mas a situação é bem diferente – para melhor. Os índices caíram drasticamente, para 14,5 homicídios por 100 mil habitantes (para efeito de comparação, no Brasil o índice é de 27,8 e no Estado de São Paulo é de 8,2 por 100 mil), e as conquistas nas áreas social e urbanística colocaram Medellín na vitrine global, recebendo vários prêmios de urbanismo.

Em 2009, por exemplo, ela venceu o Prêmio FAD, de Barcelona, concedido a iniciativas urbanas que transformam as cidades e melhoram a vida de seus cidadãos. Quatro anos mais tarde, foi eleita a cidade mais inovadora do mundo em um concurso realizado pelo The Wall Street Journal e o Citigroup. E em 2016 foi escolhida pela UNESCO para fazer parte da Rede de Cidades Criativas, além de ter recebido o Lee Kuan Yew World City Prize, prêmio internacional mais importante de urbanismo e desenvolvimento do mundo. Mas como essa transformação toda aconteceu? E o que os grandes centros urbanos brasileiros podem aprender com a experiência de Medellín?

No centro da mudança está um programa de urbanismo social iniciado em 2003, com a eleição do prefeito Sérgio Fajardo, um PhD em Matemática pela University of Wisconsin-Madison (EUA). Ele levou para o governo muitos quadros com sólida formação acadêmica, como Alejandro Echeverri, arquiteto e urbanista colombiano e professor convidado de diferentes universidades, incluindo Harvard.

Considerado o pai do conceito de urbanismo social, Echeverri foi um dos líderes da estratégia de inclusão social de Medellín, um programa baseado no tripé educação, cultura e urbanismo, com ações focadas nas áreas mais pobres e com altos índices de criminalidade. O coração do trabalho foi o Projeto Urbano Integral (PUI), que preparava as ações nos bairros de forma associada entre as diferentes áreas do poder público, como transporte, saúde, cultura, espaço público e educação.

A iniciativa consistia em escolher territórios específicos da cidade – bairros periféricos pobres – para receber um PUI. A partir daí, o plano de ações era desenhado em conjunto entre os vários órgãos da prefeitura e com a participação da comunidade. “Fizemos uma estratégia holística, ou integral, daí a ideia do Programa Urbano Integral, a ferramenta mais importante do urbanismo social”, diz em entrevista a este colunista Alejandro Echeverri, que foi gerente-geral da Empresa de Desenvolvimento Urbano (2004-2005) e Diretor de Projetos Urbanos da Prefeitura de Medellín (2005-2008). “Uma estratégia direcionada aos bairros mais pobres de Medellín, com foco nas dimensões do espaço público, residência, transporte, tudo combinado com uma agenda de projetos de cultura, educação e empreendimentos a partir do trabalho com as comunidades”, afirma.

A participação da população local nas decisões, aliás, é um dos pontos centrais do urbanismo social. “Quando chegamos ao governo, já tínhamos anos de trabalho com as comunidades e traduzimos isso em projetos nos territórios. É preciso ter o conhecimento e a sensibilidade de construir diálogos”, afirma.

Case em mobilidade e cultura

Foi assim que nasceu, entre outras iniciativas, uma nova política de mobilidade, hoje um case internacional. Em 2004, a companhia de metrô inaugurou o Metrocable, um teleférico de alta capacidade que conecta o sistema de transporte aos morros onde mora a população pobre. Com a obra, o trajeto das pessoas para o trabalho, que antes podia levar horas, foi reduzido para no máximo meia hora. Além disso, o teleférico virou atração turística da cidade. Também foram feitas várias melhorias nas ruas, recuperando espaços públicos para os pedestres e ciclistas.

“MEDELLÍN (…) TAMBÉM NOS MOSTRA A IMPORTÂNCIA DE ESCUTAR E FAZER JUNTO A SOCIEDADE, SEM PROGRAMAS TOP DOWN”

Junto com essas ações, foram construídos equipamentos públicos, com destaque para os parques-biblioteca, espaços culturais e de educação nas periferias, algo semelhante ao CEU, em São Paulo. O orçamento do município demonstra a relevância das áreas cultural e educacional no projeto de transformação: em 2004, o investimento em cultura equivalia a 0,6% do orçamento de Medellín, subindo para 5% no ano seguinte. Em educação, foi de 12% para 40%.

Nesse processo todo, aprender com as experiências do passado foi uma das chaves para o sucesso, conforme explica à coluna o jornalista Jorge Melguizo, outro protagonista do urbanismo social de Medellín. Ex-secretário de Cultura Cidadã (2005 a 2009) e de Desenvolvimento Social (2009 e 2010) da cidade, ele explica que Medellín vinha tentando diversos projetos ao longo das décadas 1980 e 1990. “A cada fracasso aprendíamos algo. E essa aprendizagem se converteu num processo que talvez fracassasse, mas que ainda assim aprenderíamos novamente”, afirma. “E desses múltiplos fracassos urbanos, educativos e culturais desenvolvemos uma enorme capacidade pública, cidadã, privada e universitária que levou a um trabalho de articulação entre múltiplos setores, o que gerou resultados reais de transformação.”

É certo que Medellín ainda tem muitos desafios sociais a superar, como toda cidade latino-americana com um logo histórico de desigualdade social e violência – a própria Colômbia enfrenta atualmente uma onda de protestos por justiça social e melhora na qualidade de vida. Mas os avanços proporcionados pelo urbanismo social em Medellín são inegáveis.

Num momento em que as cidades brasileiras precisam enfrentar o duro de legado de aumento de desigualdade social provocado pela pandemia, nunca é demais analisarmos experiências bem-sucedidas dentro do nosso próprio país, vindas das comunidades, da sociedade civil ou do poder público, e de nossos vizinhos, como a Colômbia. “É melhor fazer uma série de ações de curto prazo, com resultados rápidos, do que um grande plano que demore a dar frutos”, diz Echeverri. É uma boa lição. E um caminho mais realista, econômico e eficiente do que pensarmos em soluções complexas e mirabolantes ou em projetos aplicados em países cuja realidade social e econômica é muito diferente da nossa.

Medellín nos ensina o valor da cooperação, da inovação social e da criatividade para a resolução de problemas reais. E também nos mostra a importância de escutar e fazer junto a sociedade, sem programas top down, aproveitando o conhecimento e a vivência que as comunidades têm do lugar onde vivem e construíram suas histórias.

Fonte: Fast Company Brasil

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