Por que, afinal, a cidade da Flórida pode ser o lugar ideal para os latino-americanos desbravarem o mundo?

s principais centros de inovação tecnológica dos Estados Unidos, como Austin, San Francisco (Vale do Silício), Seattle e Nova York (especialmente o Brooklyn), são, há muito tempo, também os lugares certos para startups e investidores. Aos poucos, porém, Miami tem atraído o olhar dos dois lados dessa moeda e com um ingrediente a mais: uma cultura muito mais receptiva aos empreendedores latino-americanos.

Um dos maiores “defensores” dessa nova posição da “Magic City” é o prefeito da cidade, Francis Suarez. Ele criou uma polêmica nacional em dezembro passado ao responder um tweet de Delian Asparouhov, um investidor do Founders Fund. No post, o investidor disse: “Ok, pessoal, me escutem: e se mudarmos o Vale do Silício para Miami?” Suarez respondeu, com um cordial, mas provocador, “Como posso ajudar?”

Em 2017, a Fundação Kauffman classificou Miami como a cidade número um para startups nos EUA. Dois anos depois, o Crunchbase relatou que startups da cidade levantaram US$ 972 em financiamento, distribuídos em 57 aportes diferentes. Mais recentemente, e não muito depois do infame tweet de Suarez, o SoftBank Group Corp. anunciou US$ 100 milhões em recursos para empresas sediadas em Miami ou planejando se mudar para lá.

Em comparação com a cidade de Nova York ou a baía de São Francisco, Miami oferece às startups latino-americanas várias vantagens, diz Julia Lucidi, gerente sênior de relacionamentos para a América Latina do CIC Miami, uma comunidade e coworking com fins lucrativos que apoia o empreendedorismo em nove grandes centros de inovação no mundo.

“Geograficamente falando, Miami tem uma localização favorável para muitas empresas [latino-americanas] e da Europa que desejam acessar a América Latina. Quando você compara o custo de fazer negócios em Miami com Nova York ou Califórnia, percebe que Miami tem um custo de vida muito mais baixo. Temos o mesmo fuso horário ou fuso horário muito próximo de quase todos os países da América Latina. E há proximidade cultural. Quando você vem para Miami, muitas pessoas falam espanhol e português”, explica Lucidi.

Julia Lucidi, gerente sênior de relacionamento e líder do Soft Landing Program do CIC Miami. Foto: Divulgação.

Lucidi lidera o Soft Landing Program da CIC, um programa de treinamento de cinco dias (atualmente virtual) para empreendedores internacionais que buscam entrar no mercado dos EUA. O programa é ministrado em inglês e está limitado a 10 startups por edição. O objetivo do programa é dar aos fundadores as habilidades e o conhecimento de que precisam para ter sucesso nos EUA, e ajudá-los a evitar armadilhas culturais e outras gafes.

Lucidi explica que quando os fundadores desembarcam nos EUA querem resolver questões mais urgentes, e acabam ficando um pouco perdidos. “Entendemos essas necessidades urgentes, mas é importante tomar decisões informadas porque você não quer queimar uma conexão importante ou contratar um provedor de serviços que será uma perda de tempo, ou pior, uma perda de dinheiro. Entender a quem se conectar e quando durante o processo de lançamento [do seu negócio] é fundamental.”

Uma das histórias de sucesso que passaram pelo CIC Miami é a da GenoSUR, uma startup de diagnóstico molecular do Chile, que foi notícia em abril de 2020 por vender um milhão de testes de COVID-19 ao governo do país.

Quando a GenoSUR ingressou no Soft Landing Program, em 2019, a startup havia acabado de perder uma parceria estratégica e foi forçada a fechar seu laboratório no Chile. Acabou abrindo seu primeiro laboratório nos EUA nas instalações do CIC Miami, e posicionando-se para atender o mercado norte-americano em plena a pandemia, enquanto expandia operações para o México e a Espanha e, eventualmente, reabria instalações no Chile.

“O que adoro na história da GenoSUR é que [a empresa] não só cresceu internacionalmente, mas se consolidou em seu país de origem. Passaram a gerar empregos e inovar lá, além de ter novas referências internacionais ”, conta Lucidi.

Deixando a baía de São Francisco para trás. Destino? Miami

Ao contrário de centros de tecnologia estabelecidos, Miami parece estar mais aberta aos fundadores e investidores recém-chegados. Foi exatamente isso que surpreendeu o co-fundador da Groovoo, o brasileiro Leandro Garcia, que recentemente se mudou de São Francisco para lá. O motivo? O lançamento de uma nova rede social e plataforma de eventos que escolheu a arte brasileira como foco do seu início.

“Mudar para Miami foi a melhor decisão que tomamos. Estamos fazendo eventos principalmente para a comunidade brasileira, que é muito maior aqui do que na Califórnia. Isso foi importante para nós, e as pessoas também são muito mais abertas aqui. Fiz mais conexões morando em Miami por três meses do que em dois anos em San Francisco. Fui convidado para um fórum de aceleração de startups com fundadores e investidores, e para um grupo WhatsApp com fundadores. Na Califórnia, era difícil chegar perto desse tipo de oportunidade,” disse Garcia.

Nos últimos meses, a Groovoo já conseguiu atrair nomes como o DJ e modelo Jesus Luz e os DJs cariocas Cat Dealers para eventos de grande escala. A plataforma acaba de anunciar uma parceria com Claudia Leitte para o projeto The Wagon, que vai oferecer a experiência do trio elétrico, típico do Carnaval, ao público da Flórida. O projeto, originalmente marcado para 2020, foi adiado em razão da pandemia. Agora está programado para acontecer no dia 17 de julho e a Groovoo é a fornecedora exclusiva de ingressos do evento.

O empresário brasileiro Ivo Machado veio a Miami pela primeira vez em 2016 para lançar sua primeira empresa, a Movpak (uma mistura de mochila com skate elétrico retrátil). Ele se apaixonou pela cidade, pelo clima, porque parecia muito com o Brasil. Na época, porém, o ecossistema de startups não estava avançando tão rápido quanto Machado gostaria. Ele acabou mudando de planos e foi para Los Angeles, onde começou a trabalhar como editor de vídeo.

No novo trabalho, ele notou como os softwares de edição de vídeo disponíveis ainda eram muito lentos, mesmo para profissionais qualificados. Ele e o irmão, Vicente Machado, criaram, então, a Wisecut, uma ferramenta que usa IA e reconhecimento de voz para automatizar o processo de edição. “Enquanto morava em L.A., falava sobre Miami para meus amigos. Sentia falta do oceano Atlântico e de como as pessoas eram mais felizes aqui”, conta.

Ele encontrou numa aceleradora chamada TheVentureCity a oportunidade para voltar para Miami. “Depois de ser aprovado para o Product Led Program (programa focado em desenvolvimento de produtos), comecei a desenvolver um plano para me mudar para Miami e as coisas começaram a se encaixar. Agora estou aqui e sinto a cidade pulsar. Junto com todo esse movimento tecnológico que está acontecendo, parece perfeito”, diz.

Estar “entre o Brasil e os EUA” é ideal para a Wisecut, que tem como alvos preferenciais influenciadores e criadores de conteúdo em anos os países. “Quando você pensa em ser uma startup, você pensa em ser global desde o início. E se você quer ser global, é importante estar nos EUA, que é onde você encontrará mais oportunidades de alcançar o resto do mundo. Se você conseguir fazer isso nos EUA, ir para o resto do mundo será muito mais fácil”.

Esta é a hora de Miami. A América Latina já descobriu Miami, mas acho que os americanos estão descobrindo agora, especialmente depois da pandemia. O custo de vida é bem mais barato, o aluguel é mais barato, posso morar mais perto da praia e posso ter uma qualidade de vida melhor.

Ivo machado, cofundador da Wisecut.

O que esperar de Miami nos próximos cinco anos

“Vejo Miami como um centro global”, diz Lucidi. “Acho que a localização geográfica de Miami é uma vantagem incrível. Vemos isso nas empresas que trabalham aqui e no tipo de trabalho que podem fazer em Miami. Portanto, vejo Miami se tornando uma forte ponte internacional, não apenas da América Latina para os Estados Unidos, mas da Europa para os Estados Unidos e a América Latina. Vejo Miami conectando essas regiões de uma forma realmente estratégica.”

Àqueles pensando em ir para lá, Lucidi dá um aviso: não vá sozinho. “Há uma comunidade de inovação próspera aqui. Não sinta que precisa fazer isso sozinho. O CIC está aqui para abrir as portas [para] você. Temos todas as precauções e medidas de segurança aqui, incluindo testes COVID no local. Então, dê esse passo para se tornar parte da comunidade. ”

Traduzido por Fabiane Ziolla Menezes

Fonte: LabsNews

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