Há dez anos, as empresas de base tecnológica fundadas apenas por mulheres representavam 4,4% do mercado

Por Gabriela Arbex

Nos últimos anos, o Brasil tem vivido uma evolução no ecossistema de inovação e capital de risco. Já temos 12 unicórnios e passamos a ser reconhecidos como um país que produz soluções inovadoras e empresas capazes de competir em nível global. No que diz respeito à diversidade e inclusão, no entanto, o avanço foi bem menos significativo.

A falta de representatividade é histórica, e só recentemente temos visto movimentos que reconhecem o quão nocivo pode ser um ambiente pouco diverso, principalmente quando o resultado precisa ser a inovação. Uma sociedade pautada na desigualdade reproduz preconceitos e vieses inconscientes – e gera mais desigualdade.

Segundo o “Female Founders Report 2021”, estudo elaborado pela empresa de inovação Distrito em parceria com a Endeavor, rede global de empreendedorismo, e a B2Mamy, empresa que capacita e conecta mães ao ecossistema inovador, divulgado hoje (8), no Dia Internacional da Mulher, no empreendedorismo de inovação o cenário não é diferente – se não for ainda mais grave.

Há dez anos, quando o ecossistema de startups brasileiro ainda estava no seu estágio inicial de desenvolvimento – tinha 18% do tamanho que tem hoje –, as empresas de base tecnológica fundadas apenas por mulheres representavam 4,4% deste mercado e outras 3,5% tinham fundadores de ambos os gêneros. Aquelas fundadas exclusivamente por homens eram 92,1% em 2011. Em 2020, esses índices são 4,7%, 5,1%, 4,7% e 90,2%. 

“O resultado nos surpreendeu. Embora soubéssemos da desigualdade óbvia observada nos ambientes de inovação, a diferença é ainda mais alarmante do que se esperava: menos de 5% das startups são fundadas apenas por mulheres e somente outros 5% têm um time híbrido de fundadores”, diz Lilian Natal, partners & head do Distrito for Startups.

“Ou seja, mais de 90% das startups no Brasil ainda são fundadas apenas por homens e ainda maior é o abismo quando consideramos a proporção de startups criadas por mulheres que recebem investimento, não chegando nem a 1%. O mais irônico é que, embora haja todas essas dificuldades para elas, dados mostram que startups que possuem pessoas do sexo feminino em seu quadro societário tendem a ter resultados 25% melhores.”

DESIGUALDADE EM CASCATA  

Segundo o levantamento, a desigualdade, que começa no menor número de fundadoras, manifesta-se nas mais diferentes fases dos negócios, desde a ideação até a atuação das empresas no mercado, passando pela captação de investimentos. E exemplifica: segundo uma publicação recente da “Harvard Business Review”, os investidores privilegiam os pitchs de homens em detrimento dos das mulheres, mesmo quando o conteúdo do argumento de venda é idêntico.

A diferença no tratamento continua nas demais etapas. Segundo dados do Banco Mundial, apenas 7% do total de investimentos de risco nos mercados emergentes são destinados a negócios liderados por mulheres. E a média de capital recebido por startups lideradas por elas é 65% da média recebida por eles – um cenário que se agrava à medida que aumentam os valores investidos.

O prejuízo dessa realidade não se limita às mulheres, mas a todo o ecossistema. “Espaços diversos criam ambientes mais complexos, plenos de trajetórias e visões de mundo diferenciadas, e são mais propensos a oferecer soluções criativas para os desafios cada vez mais complexos com os quais nos deparamos hoje”, diz o estudo. “Garantir um número maior de empresas fundadas por mulheres não é apenas uma questão ética, mas um ativo com potencial de causar impactos socioeconômicos positivos. Não se trata, portanto, de uma inciativa filantrópica, mas de um movimento capaz de gerar retornos financeiros significativos para investidores e organizações que perceberem a oportunidade e se posicionarem.”

O levantamento – feito com base na análise de dados de startups brasileiras fundadas por mulheres, em fase inicial, de expansão, avançada ou de captação bilionária, e nas respostas de 400 de suas fundadoras ou cofundadoras – traçou um raio x do empreendedorismo feminino de inovação no país.

Veja, na galeria a seguir, as principais conclusões do estudo da Distrito sobre a atuação feminina no ecossistema brasileiro de inovação:

 

Investimentos:

Ao longo dos últimos 10 anos, o volume investido em startups fundadas por mulheres evoluiu de maneira tímida. Em 2010, nenhum volume de capital foi destinado às empreendedoras, e agora, uma década mais tarde, o montante continua muito baixo: apenas 2,2% de tudo que foi aportado no ecossistema.
Esses índices mostram a dificuldade de as fundadoras captarem investimentos no setor de inovação. Isso ocorre por diversos fatores, como a desigualdade de gênero na indústria de venture capital e a alocação desigual de capital entre empresas lideradas por homens e mulheres.
O estudo mapeou, ainda, a presença feminina no setor de venture capital e chegou à conclusão de que os fundos do tipo são majoritariamente masculinos: 74% deles não têm mulheres como fundadoras ou no board, e apenas 3% têm mulheres como founders. Essa configuração se reflete na dificuldade para captar dinheiro: dos 31,8% de mulheres que já tentaram levantar recursos com investidores, 36,2% não conseguiram.
Outra conclusão do levantamento é que, mesmo quando conseguem captar, as mulheres ainda encontram um cenário desigual. Em todas as séries, o tíquete médio para soluções com fundadoras é menor do que com fundadores – em alguns casos essa diferença chega a 100 vezes. A discrepância é ainda maior nos estágios mais avançados de investimentos, a partir da série B, em especial em relação ao volume de capital aportado nas startups. A partir da série C, não foi encontrado investimento alocado em startups fundadas exclusivamente por mulheres

Representatividade:

No empreendedorismo tradicional, no qual as empresas não têm em seu core a inovação, 46,2% das empresas são fundadas por mulheres. No ecossistema de inovação, essa representação é de apenas 9,8% – 4,7% fundadas exclusivamente por mulheres e 5,1% cofundadas por elas –, o que demonstra o quanto o empreendedorismo de inovação ainda é um ambiente muito restrito à presença feminina. O levantamento levou em consideração uma amostra de 6.200 empreendimentos, que representam quase 48% do universo de 13 mil startups presentes no ecossistema brasileiro.

Quadros societários:

No que diz respeito aos quadros societários, 29,5% das startups brasileiras contam com mulheres – sendo 21,4% delas scale ups. E o impacto de lideranças femininas vai além da composição da empresa. Um estudo realizado pela Kauffman Fellows em 2019 revelou que companhias com, pelo menos, uma fundadora mulher e uma C-level empregam seis vezes mais mulheres que times compostos por apenas homens fundadores. O mesmo levantamento apostou que empresas lideradas por mulheres empregam 2,5 vezes mais mulheres (como funcionárias, executivas e membros do conselho) do que empresas lideradas por homens.

Setores:

Há expressiva participação de fundadoras e sócias nos setores de fashiontechs (61% e 63,4%, respectivamente), RH e gestão de pessoas (26,7% e 36,9%), negócios sociais (24,1% e 31,6%) e alimentação (22,7% e 34,8%). No entanto, essas categorias, juntas, significam pouco mais de 3,5% do ecossistema, sendo pouco representativo em termos absolutos.
No que diz respeito apenas a fundadoras e cofundadoras – excluindo as sócias – os destaques são os setores de saúde e biotecnologia (15,2%), educação (12,7%), serviços financeiros (8,2%) e varejo (8,1%). Das nove subcategorias de fintechs, duas – câmbio e cartão – não possuem nenhuma startup com representantes femininas na fundação.

Maturidade:

Aproximadamente 70% das empresas do ecossistema têm até 20 funcionários. Entre as startups fundadas ou cofundadas por mulheres, esse número é ainda mais expressivo e ultrapassa os 80%. Das empresas que possuem de 51 a 100 colaboradores, apenas 7,3% estão nesta faixa, índice que cai para menos da metade (3,1%) nas startups fundadas ou cofundadas por mulheres.
Isso demonstra que as empresas fundadas por mulheres são, ligeiramente, de menor porte em comparação ao ecossistema. Porém, esse cenário muda drasticamente quando se analisa o grupo de scale-ups. Não só a média de funcionários de empresas fundadas ou cofundadas por mulheres é de 56, como 41% das empresas estão na faixa de 201 a 500 funcionários.
Como as scale-ups possuem um nível de tração maior que as startups, consequentemente terão um número maior de colaboradores. Mas as estatísticas comprovam que, apesar de serem apenas 4% do ecossistema, seu impacto na geração de empregos é muito alto.

Soluções:

No que diz respeito ao público atendido, um padrão se repete entre o ecossistema, sócias e fundadoras: 57,5% das empresas oferecem soluções B2B. No universo das startups com sócias, esse índice não é muito diferente: 52,2%. Isso significa que a mulher que empreende o faz como qualquer pessoa em busca de uma solução inovadora para um determinado setor: rentabilidade, escalabilidade, competitividade e impacto.
Porém, não se pode deixar de notar a distinção quanto ao quadro das fundadoras, onde essa representatividade cai para 41,1% e as soluções B2C são 11% maiores em relação ao ecossistema como um todo (33,5% x 22,3%).
Há duas possibilidades para essa diferença levantadas pelos programas de aceleração da B2Mamy. A primeira é a dificuldade de captação de investimentos por parte dessas empreendedoras, o que faz com que muitas optem por começar atendendo consumidores de modo a acelerar a geração de caixa para a startup. A segunda é empreender mais em segmentos que começam com o consumidor final, como alimentação, educação e moda.
No que diz respeito ao modelo de negócio das startups com lideranças femininas, 24,1% são serviços online, 22,3% SaaS, 22,3% direct to consumer, 15,3% marketplaces, 9,3% outros, 4,8% mídia e entretenimento como conteúdo e 2% r redes sociais.

Fases e desafios:

Quase 50% das startups lideradas por mulheres estão em fase expansão, 35,3% de new venture (da validação da ideia ao MVP), 9,5% de profissionalização (negócio estruturado e com alta escala) e 5,8% de consolidação. Neste cenário, os principais desafios apontados por elas são escalar o negócio (60,9%), validação do modelo de negócio (56,4%), ter boas conexões (44,6%), operação do negócio (42,9%) e equilíbrio da vida pessoa e profissional (42,9%).

Perfil das fundadoras e cofundadoras:

Das mulheres que participam da fundação de startups, 76,7% são brancas, 13,3% pardas, 5,8% pretas, 3% amarelas e 0,5% indígenas (0,8% não respondeu). Em relação à orientação sexual, 90% declararam ser heterossexuais. 51,6% têm filhos, enquanto 48,4% ainda não experimentaram a maternidade.
No que diz respeito à idade, a média dos empreendedores (homens e mulheres) do ecossistema brasileira é de 40,3 anos. Ao comparar com as startups que possuem mulheres em seu quadro societário, a idade média é de 42 anos, um pouco maior. Já entre fundadoras e cofundadoras, a média volta a se aproximar da média do ecossistema: 40,9.
Já sobre a escolaridade, 45,9% têm especialização, 25,1% completaram o ensino superior e 15,8% possuem mestrado. 24,8% das mulheres ouvidas na pesquisa fundaram mais de uma empresa.

 

Motivação:

A maior parte das fundadoras ouvidas no levantamento – 33,58% – disse que o principal motivo para empreender está no alto grau de conhecimento sobre a solução oferecida ou o mercado atendido e na crença de inovar naquele setor. 28,07% delas alegou que tinha uma ótima ideia e queria colocar em prática. Apenas 0,5% disse que partiu para o empreendedorismo para completar a renda familiar.

Investimentos:

Ao longo dos últimos 10 anos, o volume investido em startups fundadas por mulheres evoluiu de maneira tímida. Em 2010, nenhum volume de capital foi destinado às empreendedoras, e agora, uma década mais tarde, o montante continua muito baixo: apenas 2,2% de tudo que foi aportado no ecossistema.
Esses índices mostram a dificuldade de as fundadoras captarem investimentos no setor de inovação. Isso ocorre por diversos fatores, como a desigualdade de gênero na indústria de venture capital e a alocação desigual de capital entre empresas lideradas por homens e mulheres.
O estudo mapeou, ainda, a presença feminina no setor de venture capital e chegou à conclusão de que os fundos do tipo são majoritariamente masculinos: 74% deles não têm mulheres como fundadoras ou no board, e apenas 3% têm mulheres como founders. Essa configuração se reflete na dificuldade para captar dinheiro: dos 31,8% de mulheres que já tentaram levantar recursos com investidores, 36,2% não conseguiram.
Outra conclusão do levantamento é que, mesmo quando conseguem captar, as mulheres ainda encontram um cenário desigual. Em todas as séries, o tíquete médio para soluções com fundadoras é menor do que com fundadores – em alguns casos essa diferença chega a 100 vezes. A discrepância é ainda maior nos estágios mais avançados de investimentos, a partir da série B, em especial em relação ao volume de capital aportado nas startups. A partir da série C, não foi encontrado investimento alocado em startups fundadas exclusivamente por mulheres.

Representatividade:

No empreendedorismo tradicional, no qual as empresas não têm em seu core a inovação, 46,2% das empresas são fundadas por mulheres. No ecossistema de inovação, essa representação é de apenas 9,8% – 4,7% fundadas exclusivamente por mulheres e 5,1% cofundadas por elas –, o que demonstra o quanto o empreendedorismo de inovação ainda é um ambiente muito restrito à presença feminina. O levantamento levou em consideração uma amostra de 6.200 empreendimentos, que representam quase 48% do universo de 13 mil startups presentes no ecossistema brasileiro.

Fonte: Forbes

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